MOBILIDADE HUMANA NO DOCUMENTO DA APARECIDA
Pe. Alfredo J. Gonçalves
O Documento de Aparecida, conclusivo da V Conferencia Geral do Episcopado Latinoamericano e Caribenho, tem um olhar especial aos movimentos migratórios no continente.
De início, em nível de constatação da realidade, os bispos salientam que “um dos fenômenos mais importantes em nossos países é o processo de mobilidade humana, em sua dupla expressão de migração e de itinerância, em que milhões de pessoas migram ou se vêm forçadas a migrar, dentro e fora dos respectivos países. As causas são diversas e estão relacionadas com a situação econômica, a violência em suas diversas formas, a pobreza que afeta as pessoas e a falta de oportunidades para a pesquisa e o desenvolvimento profissional” (DA, 73).
A tradição do Ensino Social da Igreja, especialmente desde o Vaticano II, insiste que no coração de cada pessoa humana e no coração de cada cultura existem sementes do Verbo Encarnado (Dei Verbum). Tendo em conta tais sementes, o documento diz que “os migrantes que partem de nossas comunidades podem oferecer uma valiosa contribuição missionária às comunidades que os acolhem” (DA, 415). Depois, reportando-se às palavras do Papa Bento XIV, assinala que “a realidade das migrações não deverá nunca ser vista como um problema, mas também e sobretudo como um grande recurso para o caminho da humanidade” (DA, 413).
Sublinha também as “generosas remessas” que os emigrados latino-americanos enviam desde Estados Unidos, Canadá e países europeus, o que, segundo os bispos “evidencia a capacidade de sacrifício e amor solidário em favor das próprias famílias e pátrias – ajuda de pobres aos pobres” (DA, 416).
Resulta que os migrantes, além da solidariedade que expressam por seus entes mais queridos, podem converter-se em porta-vozes de uma nova evangelização. Juntamente com suas malas e bagagens, dores e esperanças, carregam os valores de sua cultura. Se e quando entram em intercâmbio e diálogo, esses valores constituem uma base sólida para um novo conceito de cidadania, em que “a migração dá ao homem o mundo como pátria”, como lembrava o Beato Scalabrini.
Outras observações do Documento de Aparecida servem de orientação para a Pastoral dos Migrantes e para o trabalho com eles em geral. Antes de tudo, a atitude de acolhida! “É expressão de caridade, também eclesial, o acompanhamento pastoral aos migrantes. Existem milhões de pessoas concretas que, por diferentes motivos, encontram-se em constante mobilidade. Na América Latina e no Caribe constituem um fato novo e dramático os emigrantes, “desplazados” y refugiados sobretudo por causas econômicas, políticas y de violência” (DA, 411).
Vem em seguida a abertura e sensibilidade da Igreja para com a causa dos migrantes! “A Igreja, como mãe, deve sentir-se a si mesma como Igreja sem fronteiras, Igreja familiar, atenta ao fenômeno crescente da mobilidade humana em seus diversos setores (...). As Conferências Episcopais e Dioceses devem assumir profeticamente essa pastoral específica com a dinâmica de unir critérios e ações que ajudem a uma permanente atenção aos migrantes” (DA, 412).
Por fim, o texto convida a estabelecer uma ponte pastoral entre as regiões de origem e de destino dos grandes deslocamentos humanos: “Para conseguir esse objetivo, faz-se necessário reforçar o diálogo e a cooperação entre as Igrejas de saída e de acolhida, com vistas a uma atenção humanitária e pastoral aos que se mobilizam” (DA, 413).